Na gramática tradicional, a transitividade se relaciona com a incompletude no sentido de uma palavra. Se a palavra necessita de um complemento para ser compreendida em uma frase, ela é chamada de transitiva. Embora o termo seja normalmente associado a verbos, também é empregado para se referir a nomes que necessitam de complemento.

Exemplos:
Joaquim fez pipoca doce.
O verbo “fez” é completado pela expressão “pipoca doce”. É um verbo transitivo.

As pessoas têm necessidade de amor.
O substantivo “necessidade” é completado pela expressão “de amor”. É um nome transitivo.

Transitividade verbal

A transitividade verbal indica se em uma frase o verbo tem sentido completo ou não. De acordo com a transitividade, os verbos são classificados em:

Verbos Intransitivos (VI): são aqueles que não necessitam de complemento.

Exemplos:
João nasceu.
Mariana dormiu.
Beatriz chorou.
Amanheceu.

Verbos Transitivos Diretos (VTD): necessitam de um complemento, que se liga ao verbo sem preposição.

Exemplos:
Magali comeu o doce. (complemento verbal: "o doce")
Manuel perdeu a aposta. (complemento verbal: "a aposta")
Laura comprou um bombom. (complemento verbal: "um bombom")
Diogo largou o cigarro. (complemento verbal: "o cigarro")

Verbos Transitivos Indiretos (VTI): necessitam de um complemento, que se liga ao verbo com preposição.

Exemplos:
Fabiano precisava de dinheiro. (complemento verbal: "de dinheiro", preposição "de")
Carlos falou sobre o problema. (complemento verbal: "sobre o problema", preposição "sobre")
Gabriela se lembrava do passado. (complemento verbal: "do passado", preposição + artigo "do")
Janaína contava com os amigos para viajar. (complemento verbal: "com os amigos", preposição "com")

Verbos Bitransitivos ou Transitivos Diretos e Indiretos (VTDI): necessitam de dois complementos: um introduzido por preposição e outro não.

Exemplos:
O repórter noticiou a tragédia ao país. (complementos verbais: "a tragédia" e "ao país". Preposição "a")
Luís deu um presente para a namorada. (complementos verbais: "um presente" e "para a namorada". Preposição "para")
Daniela emprestou o vestido para a irmã. (complementos verbais: "o vestido" e "para a irmã". Preposição "para")
Cássia pagou a conta ao garçom. (complementos verbais: "a conta" e "ao garçom". Preposição "a")

Verbos de ligação: também chamados de relacionais, são aqueles que não apresentam um sentido próprio e têm apenas a função de relacionar elementos na frase. Os principais são “ser” e “estar”.

Exemplos:
Mauro é muito inteligente.
Vanessa está feliz com a mudança.
Ela virou uma leitora voraz.
Inácio parece cansado.

Transitividade nominal

Do mesmo modo que acontece com os verbos, há nomes (substantivos, adjetivos e advérbios) que são transitivos e necessitam de um complemento para fazerem sentido na oração.

A transitividade nominal ocorre em nomes abstratos, muitas vezes ligados a sentimentos e sensações. Normalmente esses nomes são formados a partir de um verbo transitivo.

Exemplos:
Galileu buscou respostas para suas dúvidas. (verbo transitivo)
A busca de respostas move o ser humano. (substantivo transitivo)

É importante compreender a leitura. (verbo transitivo)
A compreensão da leitura é fundamental. (substantivo transitivo)

A transitividade na gramática descritiva

A gramática descritiva tem o objetivo de observar e descrever os fenômenos que realmente ocorrem em uma língua. Para isso, o gramático considera as diversas variantes linguísticas existentes na sociedade e suas situações de uso.

Na Gramática descritiva do português, de Mário Perini, existem duas diferenças importantes no conceito de transitividade em relação à gramática tradicional.

1) A transitividade não se relaciona com a função de completar o sentido de uma palavra, mas a estrutura da frase. Ou seja, em termos técnicos, a transitividade não é um critério semântico, mas sintático.

2) A transitividade analisa não apenas os complementos, mas também as ideias adverbiais, identificando as palavras que exigem alguma complementação, as que rejeitam e as que são indiferentes ao seu uso.

Exemplos:
Mariana nasceu.
Mariana nasceu ontem.
*Mariana nasceu um nascimento lindo.

Como a terceira frase não é possível em português, entende-se que o verbo nascer rejeita complemento e é indiferente à ideia adverbial.

Pedro fez pipoca.
Pedro fez pipoca ontem.
*Pedro fez.
*Pedro fez ontem.

Como apenas as duas primeiras frases são possíveis em português, entende-se que o verbo fazer exige complemento. A presença da ideia adverbial é facultativa.

O cachorro comeu ração.
O cachorro comeu ração hoje.
O cachorro já comeu.
O cachorro já comeu hoje.

As duas frases são possíveis; logo, o verbo comer é indiferente ao uso de complemento e da ideia adverbial.

A transitividade na gramática sistêmico-funcional

A gramática sistêmico-funcional foi criada na década de 1950, para contestar os modelos linguísticos existentes na época. Seu principal expoente é o linguista britânico Michael Halliday. Este modelo é chamado de sistêmico porque vê a língua como um sistema, ou seja, uma estrutura organizada. E funcional porque a entende como uma forma de criação e compreensão da realidade.

Assim como a gramática descritiva, parte de dados coletados no mundo real. A grande diferença é que a gramática sistêmico-funcional percebe a língua como uma associação de três tipos de significados relacionados ao contexto:

- ideacional: refere-se à experiência do usuário com o mundo;
- relacional: usa a língua para interagir com outros usuários;
- textual: organiza e interliga ideias.

Nesse sentido, a Transitividade na gramática sistêmico-funcional é o sistema responsável pela tradução da experiência em linguagem, porque permite que o falante escolha entre as opções presentes na língua aquela que melhor se encaixa naquilo que pretende narrar. Ela divide os verbos em seis processos:

1) processos materiais: ações realizadas no mundo físico.
Exemplos: correr, brincar, amanhecer.

2) processos mentais: ações realizadas no mundo do pensamento.
Exemplos: pensar, sonhar, imaginar.

3) processos relacionais: ligação entre os elementos.
Exemplos: ser, estar.

4) processos comportamentais: ações do mundo interior que são exteriorizadas.
Exemplos: suspirar, sofrer, amar.

5) processos verbais: formas de exprimir uma ideia.
Exemplos: exclamar, dizer, perguntar.

6) processos existenciais: indicações de existência.
Exemplos: existir, haver

Referências bibliográficas

LIMA-LOPES, Rodrigo Esteves de. Reflexões sobre as possíveis contribuições da linguística de corpus para a gramática sistêmico funcional: transitividade e classificação de processos. Caletroscópio, [s. l.], v. 5, n. 9, jul./dez. 2017.
LUFT, Celso. Dicionário prático de regência nominal. 5. ed. São Paulo: Ática, 2010.
PERINI, Mário. Gramática descritiva do português. 4. ed. São Paulo: Ática, 2005.
SOUZA, Maria Medianeira de. Transitividade e construção de sentido no gênero editorial. 2006. 288 f. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2006.

Carolina Sueto Moreira
Carolina Sueto Moreira
Professora, revisora e estudante de tradução. Licenciada pela UFMG. Trabalha com produção de conteúdos desde 2016.